GUERRA, DÓLAR, COMBUSTÍVEL E EL NIÑO: A temprestade perfeita sobre o Agronegócio Brasileiro.
Como a guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito entre Estados Unidos e Irã, a valorização cambial, o encarecimento da energia e um El Niño potencialmente forte podem comprimir margens, elevar o endividamento e alterar as decisões da safra 2026/2027.
Maicon B. Ippolito
O RISCO DO PRODUTOR RURAL JÁ NÃO NASCE APENAS DENTRO DA FAZENDA
O agronegócio brasileiro sempre esteve exposto à instabilidade. Seca, excesso de chuva, geada, pragas, oscilações de produtividade e variações no preço das commodities fazem parte da atividade. A safra 2026/2027, entretanto, reúne uma combinação incomum de riscos externos e internos: guerras que atingem centros estratégicos de energia e fertilizantes, valorização do dólar, aumento dos combustíveis, custos financeiros elevados e a intensificação de um novo episódio de El Niño.
Cada fator, isoladamente, seria capaz de reduzir a rentabilidade de determinadas cadeias. Quando atuam simultaneamente, porém, formam um choque composto. O produtor pode pagar mais pelo fertilizante e pelo diesel, sofrer com atraso logístico, contratar insumos com dólar elevado e, ao final, colher menos em razão do clima. A consequência não é apenas agronômica: alcança o fluxo de caixa, a capacidade de pagamento, as garantias bancárias, a renovação de crédito e a preservação do patrimônio rural.
A questão central, portanto, não é saber se a soja, o milho, o café ou o algodão poderão registrar valorização. O indicador decisivo será a margem líquida obtida depois de todos os custos. Uma alta nominal da commodity não representa lucro quando fertilizantes, defensivos, combustíveis, fretes, seguros, juros e perdas de produtividade crescem em ritmo superior.
RÚSSIA E UCRÂNICA: UMA GUERRA QUE CONTINUA DENTRO DA PLANILHA DO PRODUTOR
A invasão russa da Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022, transformou o mercado mundial de alimentos, energia e fertilizantes. Rússia e Ucrânia possuem relevância histórica no comércio de trigo, milho, cevada e óleo de girassol. A Rússia, além disso, é grande produtora de petróleo, gás natural e fertilizantes nitrogenados e potássicos. Sanções, restrições financeiras, ataques à infraestrutura, limitações de seguros e alterações das rotas marítimas elevaram os custos de transação e aumentaram a volatilidade dos mercados.
Para o Brasil, a vulnerabilidade é objetiva. O Plano Nacional de Fertilizantes reconhece que mais de 80% dos nutrientes N, P e K utilizados no agronegócio nacional são importados. Dados logísticos da Conab também apontaram a Rússia como principal fornecedora de fertilizantes ao país em 2024, com participação de 25,7% no volume total importado e peso ainda maior no segmento potássico. A dependência externa, portanto, não é abstrata: ela conecta diretamente a política internacional ao custo por hectare.
Mesmo quando os produtos russos continuam chegando ao Brasil, a guerra impõe custos indiretos. Pagamentos internacionais tornam-se mais complexos; armadores, bancos e seguradoras reavaliam riscos; rotas podem ser modificadas; e o mercado incorpora um prêmio geopolítico ao preço. O fertilizante não precisa desaparecer para encarecer. Basta que a previsibilidade da oferta diminua.
O conflito também afeta o diesel. Ataques a refinarias, restrições às exportações russas e disputas sobre energia reduzem a folga da oferta mundial de destilados. Em julho de 2026, a Reuters registrou forte alta dos futuros de diesel com baixo teor de enxofre após restrições russas, ao mesmo tempo em que o mercado de petróleo reagia à escalada no Oriente Médio. Para a agricultura brasileira, isso significa maior despesa nas operações de campo e no transporte de insumos e grãos.
ESTADOS UNIDOS E IRÃ: O ESTREITO DE ORMUZ COMO GARGALO DO AGRO MUNDIAL
O conflito entre Estados Unidos e Irã adicionou um segundo foco de instabilidade. O ponto crítico é o Estreito de Ormuz, passagem marítima estratégica entre o Golfo Pérsico e o Oceano Índico. Antes da guerra, aproximadamente um quinto do petróleo mundial transitava por essa rota. Ormuz também era essencial ao comércio de ureia, amônia, enxofre e gás natural — insumos diretamente ligados à produção de fertilizantes.
A guerra iniciada em 2026 fechou ou restringiu a navegação durante parte do período, interrompeu plantas industriais e atrasou embarques. Segundo reportagens da Reuters, a região respondia por cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes, e a interrupção atingiu especialmente ureia e enxofre. Mesmo após tentativas de trégua e retomada parcial dos embarques, a infraestrutura danificada, o represamento de navios e o risco de novos ataques impediram uma normalização rápida.
O Banco Mundial estimou, no cenário de 2026, alta de 24% nos preços da energia, para o maior nível desde o choque provocado pela invasão da Ucrânia. A instituição também projetou avanço de 16% nos preços gerais das commodities, impulsionado sobretudo por energia e fertilizantes. Essas projeções evidenciam que o efeito do conflito não se limita ao preço internacional do petróleo: ele se espalha pela indústria química, pelos fretes, pelos alimentos e pela inflação.
A ureia merece atenção especial. Sua produção depende intensamente do gás natural, usado tanto como fonte energética quanto como matéria-prima para obtenção de hidrogênio e amônia. Quando o gás fica mais caro ou escasso, a indústria reduz produção ou repassa custos. O enxofre, por sua vez, é fundamental para os fertilizantes fosfatados. Assim, o mesmo conflito pode pressionar simultaneamente os nutrientes nitrogenados e fosfatados, atingindo culturas de elevado consumo tecnológico.
O EFEITO SOBRE OS FERTILIZANTES: PREÇO, DISPONIBILIDADE E MOMENTO DE COMPRA
O problema dos fertilizantes não se resume ao aumento da cotação. Para o produtor, três riscos precisam ser avaliados em conjunto: preço, disponibilidade física e prazo de entrega. Uma aquisição aparentemente mais barata pode se tornar economicamente desastrosa se o produto não chegar no momento correto para o plantio ou a cobertura.
Em ambientes de guerra, a reação usual dos compradores é antecipar aquisições. Essa conduta protege contra a falta do insumo, mas também concentra demanda e pode acelerar a alta. Grandes grupos, tradings e cooperativas tendem a possuir maior poder de negociação e capacidade de estocagem. Pequenos e médios produtores, com menos capital de giro, ficam expostos à compra tardia, ao crédito comercial mais caro ou à redução da dose agronômica.
A redução indiscriminada de adubação pode aliviar o desembolso imediato, mas comprometer a produtividade, a fertilidade do solo e o resultado das safras seguintes. O ajuste, quando necessário, deve ser técnico. Análise de solo, agricultura de precisão, adubação localizada, uso de remineralizadores, fontes organominerais e planejamento de rotação podem melhorar a eficiência, mas não eliminam de forma imediata a dependência brasileira dos fertilizantes minerais importados.
Principais canais de impacto:
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elevação das cotações internacionais de ureia, fosfatados e potássicos;
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prêmios maiores de frete, seguro e risco de guerra;
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antecipação de compras e pressão sobre capital de giro;
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risco de atraso nos portos e na distribuição interna;
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redução de dose ou substituição inadequada de tecnologia;
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maior desigualdade entre produtores com e sem capacidade de estocagem e proteção financeira.
COMBUSTÍVEIS: O CUSTO QUE ATRAVESSA TODA CADEIA
O diesel é um insumo transversal do agronegócio. Está presente no preparo do solo, na semeadura, na pulverização, na colheita, na irrigação, no transporte de animais, no deslocamento de máquinas e no frete rodoviário. Também influencia o transporte marítimo e a movimentação portuária. Por essa razão, uma alta do petróleo produz efeitos cumulativos.
O produtor paga mais para receber fertilizantes e defensivos, mais para executar as operações de campo e mais para levar a produção ao armazém ou porto. Em regiões distantes dos centros consumidores e exportadores, como partes do Centro-Oeste e do Matopiba, o peso logístico é ainda maior. Uma elevação moderada do diesel pode absorver parcela relevante da margem de culturas de grande volume e baixo valor por tonelada.
A guerra no Golfo também afeta gás liquefeito, óleo combustível e custos de navegação. Mesmo quando o Brasil possui produção própria de petróleo, os derivados são influenciados por preços internacionais, câmbio, custos de refino, importação e política comercial. Não há isolamento completo entre o barril negociado no exterior e o orçamento da fazenda brasileira.
DÓLAR: PROTEÇÃO DA RECEITA E MULTIPLICADOR DE CUSTOS
O dólar exerce efeito ambivalente sobre o agronegócio. A valorização da moeda norte-americana pode elevar, em reais, a receita de produtos exportáveis, sobretudo quando as cotações internacionais permanecem firmes. Ao mesmo tempo, encarece os fertilizantes, defensivos, sementes com tecnologia importada, peças, componentes eletrônicos, máquinas e contratos indexados à moeda estrangeira.
Em períodos de guerra, investidores buscam ativos considerados seguros, e o dólar tende a se fortalecer. A deterioração fiscal doméstica, juros internacionais e aversão a mercados emergentes podem ampliar esse movimento. O produtor que vende a safra em reais e compra insumos dolarizados sem coordenação entre as duas operações assume um descasamento cambial.
A alta cambial não beneficia todos de modo uniforme. Exportadores com produção disponível, custos já fixados e hedge podem capturar ganhos. Produtores endividados, que ainda precisam comprar insumos ou que sofrerão quebra de produtividade, podem experimentar apenas o lado negativo do câmbio. Uma saca mais valorizada não compensa necessariamente uma safra menor e um custo por hectare muito superior.
El NiÑO 2026/2027: O RISCO CLIMÁTICO QUE POTENCIALIZA O CHOQUE ECONÔMICO
A expressão “Super El Niño” é usada pela imprensa e pelo mercado para designar eventos excepcionalmente intensos, mas não constitui categoria meteorológica oficial. Tecnicamente, os centros climáticos classificam o fenômeno conforme as anomalias de temperatura do Pacífico e utilizam termos como fraco, moderado, forte ou muito forte.
Em sua atualização de 22 de junho de 2026, o International Research Institute for Climate and Society informou que as condições de El Niño estavam se fortalecendo, com probabilidade muito elevada de persistência até o início de 2027. O conjunto de modelos apontava possibilidade relevante de um episódio muito forte no segundo semestre de 2026. Trata-se, entretanto, de projeção probabilística: intensidade e efeitos regionais devem ser continuamente reavaliados.
Para o Brasil, o padrão histórico associa El Niño a maior frequência de chuvas no Sul e a risco de déficit hídrico ou irregularidade de precipitação em partes do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. O Sudeste pode enfrentar ondas de calor, distribuição irregular das chuvas e impactos distintos conforme cultura, altitude e fase fenológica. Não existe, portanto, um único efeito nacional.
Possíveis efeitos regionais:
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Sul: excesso de chuvas, enchentes, erosão, doenças fúngicas, dificuldade de plantio e colheita e perda de qualidade de grãos;
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Centro-Oeste: atraso ou irregularidade das chuvas, veranicos, redução da janela do milho segunda safra e maior demanda por irrigação;
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Sudeste: calor, estresse hídrico localizado e impactos sobre café, cana, hortifrúti, leite e disponibilidade de água;
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Norte e Nordeste: maior risco de seca, perda de pastagens, incêndios, redução de reservatórios e pressão sobre sistemas de sequeiro.
O El Niño pode ainda alterar o ambiente fitossanitário. Excesso de umidade favorece fungos e dificulta aplicações; calor e seca aumentam estresse vegetal e podem favorecer determinadas pragas. Com isso, o produtor pode gastar mais em defensivos justamente quando fertilizantes, combustível e crédito já estão caros.
A TEMPESTADE PERFEITA: QUANDO GEOPOLÍTICA E CLIMA ATUAM AO MESMO TEMPO
O maior perigo não está em cada evento isolado, mas na interação entre eles. Imagine-se uma propriedade que adquire fertilizantes sob forte valorização do dólar, paga fretes pressionados pelo diesel e contrata crédito para financiar o custeio. Se o El Niño reduzir a produtividade, o custo fixo e financeiro será distribuído sobre menor quantidade produzida. O custo por saca aumenta de forma abrupta.
No Sul, o excesso de chuva pode causar atraso de colheita, perda de qualidade e dificuldade de transporte. No Centro-Oeste, a irregularidade climática pode encurtar a janela da segunda safra. No Norte e Nordeste, a seca pode reduzir pastagens e elevar a compra de alimentação animal. Em todos os casos, o choque climático transforma o encarecimento internacional dos insumos em problema de solvência.
O efeito agregado pode alcançar toda a economia brasileira. Alimentos mais caros pressionam a inflação; combustíveis e fretes contaminam outros preços; a política monetária pode permanecer restritiva; e o crédito rural privado tende a ficar mais seletivo. O Banco Central reconheceu, em 2026, que os conflitos no Oriente Médio aumentaram a incerteza sobre inflação e suas variáveis condicionantes.
IMPACTOS NAS PRINCIPAIS CADEIAS DO AGRONEGÓCIO
SOJA
A soja pode se beneficiar do dólar valorizado e de eventual aumento da demanda externa, mas é altamente dependente de fertilizantes fosfatados e potássicos, defensivos e logística. A margem será determinada pela relação de troca, e não apenas pela cotação da saca. Excesso de chuva no Sul ou irregularidade no Centro-Oeste pode comprometer produtividade e qualidade.
MILHO
O milho é sensível ao custo dos nitrogenados e à janela de plantio. Ureia cara, atraso da soja e redução das chuvas na segunda safra formam uma combinação particularmente perigosa. O aumento do custo do grão também pressiona aves, suínos, leite e confinamento bovino.
CAFÉ
No café, calor excessivo, irregularidade de chuva e custo elevado de fertilização podem afetar florada, pegamento e enchimento dos frutos. Como a cadeia possui forte inserção internacional, o dólar pode favorecer receitas, mas não elimina o risco agronômico nem a elevação do custo de manejo.
ALGODÃO E CANA-DE-AÇÚCAR
Algodão e cana utilizam operações mecanizadas intensivas e grande volume de insumos. Diesel, fertilizantes e defensivos possuem peso significativo. A cana também é influenciada pela relação entre petróleo, etanol e política de combustíveis, enquanto o algodão depende fortemente do mercado externo e da logística.
PECUÁRIA
Na pecuária, a alta do diesel afeta transporte, manejo e distribuição. O milho e o farelo mais caros elevam o custo da alimentação. Seca reduz pastagens e água; excesso de chuva pode dificultar manejo, sanidade e acesso às propriedades. Leite, aves, suínos e confinamento tendem a sentir rapidamente o encarecimento dos grãos.
CRÉDITO RURAL, ENDIVIDAMENTO E RISCO PATRIMONIAL
O custeio de uma safra é planejado com base em estimativas de produtividade, custo e preço. Quando as três variáveis se deterioram simultaneamente, o contrato financeiro deixa de refletir a realidade econômica da atividade. A propriedade pode gerar receita bruta elevada e, ainda assim, não produzir caixa suficiente para honrar parcelas, fornecedores, arrendamentos e compromissos fiscais.
O primeiro reflexo costuma ser a utilização de crédito de curto prazo para cobrir despesas permanentes. Depois surgem renegociações fragmentadas, venda antecipada em condições desfavoráveis, reforço de garantias e comprometimento do patrimônio pessoal. Sem diagnóstico consolidado, medidas destinadas a ganhar tempo podem apenas transferir o problema para a safra seguinte.
A prorrogação de operações de crédito rural pode ser juridicamente cabível quando presentes os requisitos legais, regulamentares e probatórios, especialmente diante de frustração de safra, dificuldade de comercialização ou ocorrências prejudiciais ao desenvolvimento da exploração. Não se trata, porém, de suspensão automática. O produtor precisa documentar perdas, comunicar a instituição financeira, produzir laudos, organizar notas, contratos, extratos e demonstrar capacidade futura de pagamento.
Em situações de crise mais profunda, podem ser avaliadas renegociação estruturada, mediação, revisão de garantias, venda organizada de ativos não essenciais, recuperação judicial ou outras medidas de reestruturação. A proteção patrimonial preventiva também deve ser lícita, transparente e anterior à insolvência. Estruturas criadas depois da crise, com objetivo de ocultar bens ou frustrar credores, aumentam o risco jurídico.
O QUE O PRODUTOR PODE FAZER ANTES DA CRISE
Nenhuma estratégia elimina guerras ou fenômenos climáticos. A gestão pode, contudo, reduzir a exposição, preservar liquidez e aumentar a capacidade de reação. A preparação deve ocorrer antes do vencimento das obrigações e antes de eventual perda de safra.
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elaborar orçamento por cenário, com hipóteses de alta do dólar, diesel, fertilizantes e queda de produtividade;
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acompanhar a relação de troca entre insumos e produto, evitando decisões baseadas apenas no preço nominal da commodity;
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coordenar a venda futura da produção com a compra de insumos e instrumentos de proteção cambial;
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diversificar fornecedores, origens, datas de compra e modalidades logísticas;
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preservar reserva de liquidez e evitar financiar despesas permanentes com crédito emergencial de curtíssimo prazo;
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revisar contratos de custeio, CPRs, barter, arrendamentos, seguros e garantias antes da assinatura;
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contratar seguro rural compatível com cultura, região, produtividade esperada e riscos efetivamente cobertos;
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registrar tecnicamente perdas climáticas e comunicações com bancos, seguradoras, cooperativas e fornecedores;
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adotar manejo de solo, água e fertilidade voltado à resiliência, sem cortes indiscriminados de tecnologia;
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integrar planejamento agronômico, financeiro, contábil, tributário e jurídico.
A FALSA ESCOLHA ENTRE PRODUZIR E PROTEGER
Em períodos de forte expansão, planejamento jurídico e financeiro pode parecer secundário. Na crise, porém, torna-se evidente que produtividade sem governança não garante continuidade. A propriedade rural moderna é, ao mesmo tempo, unidade produtiva, empresa, patrimônio familiar, tomadora de crédito e participante de um mercado global.
Proteger a atividade não significa paralisar investimentos ou evitar todo risco. Significa conhecer a exposição, definir limites, contratar obrigações compatíveis com cenários adversos e agir antes que o vencimento transforme um problema econômico em execução judicial. O melhor momento para reorganizar dívidas, garantias e patrimônio é quando ainda existem alternativas.
CONCLUSÃO: A SAFRA SERÁ DECIDIDA TAMBÉM FORA DA PORTEIRA
A guerra entre Rússia e Ucrânia mantém pressão sobre energia, grãos e fertilizantes e revela a dependência brasileira de fornecedores externos. O conflito entre Estados Unidos e Irã acrescenta risco ao petróleo, ao gás natural, à ureia, ao enxofre e às rotas do Estreito de Ormuz. A valorização do dólar multiplica esses custos em reais. O diesel encarece operações e logística. Paralelamente, um El Niño potencialmente forte ou muito forte pode reduzir produtividade, alterar calendários e aumentar despesas fitossanitárias.
O agronegócio brasileiro continua competitivo, mas sua força não elimina vulnerabilidades. O país é grande exportador de alimentos e, simultaneamente, grande importador de insumos essenciais. Essa assimetria faz com que guerras distantes entrem diretamente na planilha da fazenda.
A resposta adequada não é alarmismo, mas preparação. Produtores que monitorarem custos, protegerem margens, coordenarem compras e vendas, documentarem perdas e revisarem antecipadamente sua estrutura financeira e jurídica estarão em posição superior. Na safra 2026/2027, produzir bem seguirá sendo indispensável. Contudo, sobreviver à combinação de guerra, câmbio, energia e clima dependerá sobretudo da qualidade da gestão do risco.
REFERÊNCIAS CONSULTADAS
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BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatórios e comunicações de política monetária de 2026, com avaliação dos riscos geopolíticos e inflacionários.
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BANCO MUNDIAL. Commodity Markets Outlook e base Commodity Markets, abril-julho de 2026.
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BRASIL. Plano Nacional de Fertilizantes 2050.
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COMPANHIA NACIONAL DE ABASTECIMENTO (CONAB). Anuário Agrologístico 2025, v. 2.
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INTERNATIONAL RESEARCH INSTITUTE FOR CLIMATE AND SOCIETY (IRI). ENSO Forecast – June 2026 Quick Look, 22 jun. 2026.
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IPEA. Estudos sobre fertilizantes, dependência externa e impactos econômicos da guerra entre Rússia e Ucrânia.
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REUTERS. Cobertura de 2026 sobre a guerra entre Estados Unidos e Irã, Estreito de Ormuz, petróleo, diesel e fertilizantes.
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WORLD BANK. Estudos sobre guerra na Ucrânia, energia, fertilizantes, preços agrícolas e segurança alimentar.
